Em que acreditavam os primeiros cristãos?
Uma das ideias mais profundamente enraizadas nos círculos acadêmicos liberais em relação ao Jesus histórico é que Paulo foi o inventor do cristianismo como o conhecemos. Eles argumentam que o Jesus da história era um homem comum e que Paulo exaltou a figura do Jesus histórico ao que se tornou o Cristo da fé: exaltado, ressuscitado e divino.
O Dr. Antonio Piñero, um estudioso espanhol cético — especialista em cristianismo primitivo e filologia grega na Universidade Complutense de Madri — afirma que Jesus:
“era um homem normal, um judeu piedoso, um rabino carismático, profeta, arauto ou anunciador do iminente Reino de Deus, etc., cuja figura foi reinterpretada após sua morte até se tornar divina”.
Para descobrir se isso é verdade, devemos voltar às crenças mais antigas e primitivas dos primeiros cristãos. Paulo, como sabemos, aceitou Jesus como o Messias, em um encontro que teve na estrada para Damasco. Isso aconteceu entre 1 e 3 anos após a morte de Jesus.
Neste artigo, veremos que as crenças dos primeiros cristãos — antes da conversão de Paulo — estão em consonância com o que Paulo ensinou. Paulo não inventou nada de novo. Como veremos, as crenças cristãs básicas já existiam antes de Paulo entrar em cena. Vejamos algumas dessas passagens pré-paulinas que mostram as crenças cristãs mais antigas:
Credo de 1 Coríntios 15:3-7. “Antes de tudo, entreguei a vocês o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas e, depois, aos doze. Depois, foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria ainda vive; porém alguns já dormem. Depois, foi visto por Tiago e, mais tarde, por todos os apóstolos.”
Quando Paulo apresenta aqui o relato do que recebeu de outros, a saber, que “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, que foi sepultado, que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e que apareceu…” (1 Coríntios 15:3-4), isso deve ser levado a sério.
E os estudiosos realmente consideram isso dessa forma também. Além disso, é praticamente unanimemente aceito que Paulo acreditava, pelo menos, que tinha visto Jesus ressuscitado pessoalmente, e isso faz uma enorme diferença. Portanto, estamos lidando aqui com alguém que estava muito próximo do início, que conhecia os outros apóstolos, que está repetindo o Evangelho com o qual todos concordavam e que todos ensinavam.
Em 1 Coríntios 15:11, Paulo afirma que não havia distinção entre receber a mensagem dele ou dos outros apóstolos, precisamente porque todos pregavam a mesma coisa. Paulo teve muito cuidado — como explica em Gálatas 2:2 (outra das epístolas reconhecidas unanimemente) — para garantir que este era o mesmo Evangelho que os outros apóstolos estavam pregando, assim como os outros afirmaram isso sobre Paulo apenas quatro versículos depois (Gálatas 2:6). É por essa razão que o eminente professor C.H. Dodd, da Universidade de Cambridge — especialista em estudos do Novo Testamento — afirmou o seguinte:
“Qualquer pessoa que mantenha a ideia de que o evangelho cristão primitivo era fundamentalmente diferente do que encontramos em Paulo deve arcar com o ônus da prova”.
Este é precisamente o caso, uma vez que:
“A pregação de Paulo representa uma corrente especial da tradição cristã derivada da corrente principal em um ponto muito próximo da fonte inicial.”
Neste fragmento, que precede Paulo, os primeiros crentes já ensinavam que a morte e ressurreição de Jesus foram profetizadas e formavam o núcleo de sua pregação. Esta passagem também implica que o túmulo vazio de Jesus é um fato histórico antigo. Também é vital que a crença nas aparições pós-morte de Jesus seja uma das crenças cristãs mais antigas e não uma invenção tardia. Tudo isso foi escrito em 55 d.C., quando as testemunhas oculares ainda estavam vivas.
Romanos 1:3-4. “Este evangelho diz respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor.”
Esta passagem primitiva é também um credo pré-paulino que mostra que Jesus é Senhor, Messias e Filho de Deus através da ressurreição. Uma expressão clara dos elementos do Evangelho mais antigo dos primeiros crentes. A ressurreição é o elemento-chave desta passagem.
1 Coríntios 11:23-26. “Porque eu recebi do Senhor o que também lhes entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, pegou um pão e, tendo dado graças, o partiu e disse: "Isto é o meu corpo, que é dado por vocês; façam isto em memória de mim." Do mesmo modo, depois da ceia, pegou também o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto, todas as vezes que o beberem, em memória de mim." Porque, todas as vezes que comerem este pão e beberem o cálice, vocês anunciam a morte do Senhor, até que ele venha.”
Aqui, Paulo parece estar citando diretamente Lucas 22:19-20 (E, tomando o pão, tendo dado graças, partiu-o e o deu a eles, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim”. Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós.”). Isso significa que Paulo está citando uma tradição com a qual os cristãos de Corinto já estavam muito familiarizados (a Ceia do Senhor). Portanto, tal tradição deve ter estado em circulação antes do ano 55, quando Paulo a lembrou aos coríntios, e certamente Paulo não foi seu criador.
Filipenses 2:6-11. “que, mesmo existindo na forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido a qualquer custo. Pelo contrário, ele se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos. E, reconhecido em figura humana, ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.”
É interessante que esta passagem seja provavelmente um credo pré-paulino. Portanto, podemos descartar a ideia de que Paulo foi o inventor da divindade de Jesus. Este é um hino cristão muito antigo, em circulação antes de 60-62 d.C. (quando a carta aos filipenses foi escrita) e provavelmente em circulação já na década de 50. Neste hino, Jesus era “na forma de Deus”, tem “igualdade” com Deus, recebe adoração de “toda língua”, é “SENHOR” e seu nome é maior do que qualquer outro — não apenas na terra, mas no céu. É revelador que Paulo tenha introduzido esse material como se não esperasse nenhuma controvérsia e sem uma defesa ou explicação robusta. O especialista em cristianismo primitivo, Dr. Larry Hurtado, diz que esta é uma passagem “amplamente reconhecida por estudiosos especializados nas origens do cristianismo como uma das passagens mais importantes que mostram a expressão devocional a Jesus”.
Colossenses 1:15-18. “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja. Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para ter a primazia em todas as coisas.”
Esta passagem enfatiza o fato de que Jesus não é um ser criado, mas que ele mesmo é criador e existe antes de tudo e é o princípio e o fim de tudo. Claramente, para os primeiros crentes, o Evangelho já incluía a pré-existência e a divindade de Cristo.
1 Timóteo 3:16. “Sem dúvida, grande é o mistério da piedade: ‘Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, visto pelos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória.’”
Esta fórmula confessional afirma que Jesus veio em carne (em outras palavras, ele não existia anteriormente em carne) e o fato de ter sido visto pelos anjos implica sua ressurreição. De acordo com esta passagem, tanto a encarnação quanto a ressurreição e ascensão fazem parte da crença cristã mais primitiva.
1 Pedro 3:18-22. “Pois também Cristo padeceu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir vocês a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais, noutro tempo, foram desobedientes, quando Deus aguardava com paciência nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucas pessoas, apenas oito, foram salvas através da água. O batismo, que corresponde a isso, agora também salva vocês, não sendo a remoção das impurezas do corpo, mas o apelo por uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo, que, depois de ir para o céu, está à direita de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, potestades e poderes.”
Esta passagem afirma claramente que:
Jesus morreu e que ele era justo.
Que sua morte é suficiente para perdoar os pecados dos injustos.
Que, embora estivesse fisicamente morto, seu espírito continuou vivo.
Que ele ressuscitou, ascendeu ao céu, está à direita de Deus e tem autoridade.
Em resumo, a morte, ressurreição e autoridade (divindade) de Cristo (estar à direita de Deus) não são invenções tardias da igreja.
1 João 4:2. “Nisto vocês reconhecem o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.”
Essa confissão inicial da igreja implica a ideia de confiança ativa e não apenas afirmação intelectual. A crença de que Jesus foi uma figura histórica de carne e osso que veio diretamente comissionado por Deus não é uma invenção paulina.
Romanos 10:9,13. “Se com a boca você confessar Jesus como Senhor e em seu coração crer que Deus o ressuscitou dentre os mortos, você será salvo… porque: ‘Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.’”
Paulo chama Jesus de “Senhor” no contexto do processo de salvação pela fé em Cristo. Então, no versículo 13, ele cita Joel 2:32: “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Mas, em vez de atribuir esse processo de salvação a Yahweh (YHWH), Paulo o aplica a Jesus! Essa salvação se baseia não apenas na crença em Jesus como Salvador, mas também em sua ressurreição. Essa passagem também é pré-paulina e inclui divindade, morte e ressurreição como uma antiga fórmula confessional. O Dr. Gary Habermas indica que essa pode ser uma fórmula batismal dos primeiros cristãos.
1 Timóteo 6:13. “Diante de Deus, que preserva a vida de todas as coisas, e diante de Cristo Jesus, que, na presença de Pôncio Pilatos, fez a boa confissão, eu exorto você.”
Muitos estudiosos pensam que a referência a Pôncio Pilatos alude à afirmação de Jesus de ser rei. Também é digno de nota que ele mencione uma figura histórica como Pilatos. A menção a Pôncio Pilatos em relação à crucificação é uma constante nos escritos cristãos primitivos. Presume-se que essas palavras foram tiradas de uma confissão litúrgica na qual a fé cristã era professada.
Romanos 4:25. “[Jesus, nosso Senhor] o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação.”
Até mesmo Bultmann (um teólogo liberal) se refere a isso como “uma declaração que evidentemente existia antes de Paulo e lhe foi transmitida” (New Testament Theology, vol. 1 (Nova York: Scribner's, 1951), p. 82).
Lucas 24:34. “os quais diziam: — De fato, o Senhor ressuscitou e já apareceu a Simão!”
O Dr. Gary Habermas comenta que o estudioso Joachim Jeremias acredita que esta breve menção a Pedro por Lucas é ainda mais antiga do que 1 Coríntios 15:5, o que tornaria esta passagem uma das mais antigas, uma vez que a grande maioria dos estudiosos situa 1 Coríntios 15:3-7 cerca de 6 anos após a crucificação, se não vários anos antes.
Atos 2:22-24. “Israelitas, escutem o que vou dizer: Jesus, o Nazareno, homem aprovado por Deus diante de vocês com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou entre vocês por meio dele, como vocês mesmos sabem, a este, conforme o plano determinado e a presciência de Deus, vocês mataram, crucificando-o por meio de homens maus. Porém Deus o ressuscitou, livrando-o da agonia da morte, porque não era possível que fosse retido por ela.”
O Dr. Larry Hurtado inclui este texto entre outros sobre os quais afirma: “Embora estas narrativas, discursos e orações tenham sido compostos por ‘Lucas’, parecem incorporar declarações muito tradicionais provenientes dos círculos cristãos judeus.”
Não só isso. Também temos certos “Sermões Resumidos” que precedem Paulo e contêm afirmações sobre a divindade, morte e ressurreição de Jesus, tais como:
Atos 2:32. “Deus ressuscitou este Jesus, e disto todos nós somos testemunhas.”
Atos 3:15. “Vocês mataram o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas.”
Atos 5:30-32. “O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem vocês mataram, pendurando-o num madeiro. Deus, porém, com a sua mão direita, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados. E nós somos testemunhas destes fatos — nós e o Espírito Santo, que Deus deu aos que lhe obedecem.”
Tudo isso é apenas uma linha de evidência que mostra que a cristologia mais antiga dos primeiros cristãos é também a cristologia mais elevada. O cristianismo primitivo pré-paulino já inclui a divindade, a morte e a ressurreição de Jesus como fato histórico.
Para saber mais: Livro gratuito: Gary R. Habermas, Evidências a favor do Jesus histórico: O Jesus da história também é o Cristo da fé?