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Nadia Bolz-Weber e a revolução sexual de que precisamos – Cristianismo “Liberal”

Com os recentes escândalos de abuso sexual na igreja, o número sem precedentes de casais cristãos que vivem juntos antes do casamento e o movimento #ChurchToo, não há dúvida de que a igreja precisa de uma reforma sexual. Mas que tipo de reforma?

Nadia Bolz-Weber, fundadora da House for All Sinners and Saints (Casa para Todos os Pecadores e Santos), autora best-seller do New York Times, palestrante e teóloga pública, responde a essa pergunta em seu último livro, Shameless: A Sexual Reformation (Sem vergonha: uma reforma sexual). Ela argumenta que os cristãos precisam abandonar o que a igreja tradicionalmente ensinou sobre sexo e gênero e forjar uma nova ética sexual cristã.

Apoiado por progressistas [liberais] altamente influentes, como Rachel Held Evans, Sarah Bessey, Richard Rohr e Austin Channing Brown, prevejo que este livro será muito popular. É bem escrito, engraçado, realista e repleto de palavrões. Se alguém está procurando uma maneira de manter o título de “cristão” e, ao mesmo tempo, ser capaz de satisfazer livremente seus apetites sexuais da maneira que achar que promove seu florescimento sexual, Shameless será seu manifesto.

Rejeição dos ensinamentos da Igreja

Shameless começa com Bolz-Weber descrevendo os ensinamentos tradicionais da Igreja sobre o “plano de Deus” para o sexo. Ela resume e rejeita esse ensinamento na Declaração de Denver, que escreveu em resposta à Declaração de Nashville. Em parte, ela diz:

NEGAMOS que o único tipo de expressão sexual que pode ser considerado sagrado seja entre um casal cisgênero, heterossexual e casado que esperou para ter relações sexuais até se casar.

Ela não acredita que o desígnio de Deus para o sexo seja entre um homem e uma mulher dentro da aliança do casamento. Ela acredita que o que a Igreja tradicionalmente ensinou sobre sexo é prejudicial e precisa não apenas de uma reformulação, mas de uma revisão completa. Ou “Vamos queimar tudo e começar de novo”, para citar suas palavras com precisão [palavrão removido. Original em inglês: “Let's burn it the f*** down and start again,”].

Há muitas histórias e ilustrações em Shameless que os leitores conservadores considerariam chocantes, e não tenho dúvidas de que muitas resenhas do livro irão destacá-las. No entanto, gostaria de interagir com as crenças fundamentais que estão por trás dos argumentos. É aí que reside o maior perigo. Em vez de motivar seus leitores à obediência a Deus e aos ensinamentos de Cristo, Bolz-Weber lhes dá permissão para seguirem seus corações e basearem suas opiniões sobre sexo em seus próprios sentimentos, emoções e desejos. Ela faz isso de três maneiras sutis.

1. Ela promove uma perspectiva pouco ortodoxa da Bíblia

Quando criança, Bolz-Weber foi ensinada que todo o propósito e identidade de Eva era ser uma “ajudante grata” a Adão:

“Deus a deu a Adão, como uma noiva por correspondência. Adão era seu propósito” (33). E como Eva “arruinou tudo para o resto da humanidade” ao comer o fruto (42), as mulheres devem se concentrar em ficar bonitas, ficar caladas e sempre ser subordinadas e dominadas pelos homens.

Não tenho dúvidas de que foi isso que Bolz-Weber aprendeu na escola dominical. Mas sua experiência não representa fielmente o que a Bíblia realmente ensina sobre o Jardim do Éden. Ela parece mais interessada em desmantelar a ética sexual cristã histórica do que em corrigir interpretações errôneas das Escrituras, corrigir alguns erros do movimento da pureza ou mergulhar na Bíblia para elogiar o que ela ensina sobre sexo. Embora Bolz-Weber afirme amar a Bíblia e pregue regularmente a partir dela, ela não a vê como um todo coeso. Em uma entrevista à publicação LGBT Out in Jersey, ela disse:

A Bíblia não é clara sobre essa merda! A Bíblia é uma biblioteca. Digamos que você tenha uma enorme biblioteca em sua casa e pergunte: “Qual é a mensagem clara que minha biblioteca tem a dizer sobre ‘gênero’?” A poesia dirá uma coisa, a história dirá outra, a prosa dirá algo, a ficção científica dirá outra coisa.

Ela também não vê a Bíblia como uma autoridade para a vida cristã. Ela descreve uma de suas paroquianas rasgando as oito páginas da Bíblia que mencionavam a homossexualidade. A paroquiana jogou-as no fogo e finalmente “permitiu-se ser livre”. Em seguida, rasgando os quatro Evangelhos, ela os apertou contra o peito e, em um movimento catártico, jogou o resto da Bíblia no fogo (71).

Bolz-Weber escreve:

Há quem diga que é “perigoso” pensar que podemos decidir por nós mesmos o que é sagrado na Bíblia e o que não é. Rejeito essa ideia, e aqui está o motivo. (72)

O seu “porquê” é a sua visão da autoridade bíblica. Ela define os quatro Evangelhos como os livros mais autoritários. Quanto mais próximo um texto estiver dessa história, mais autoridade ele tem. Quanto mais distante, menos autoridade. Portanto, não é surpresa que muitos dos argumentos do livro sejam mais anedóticos do que bíblicos.

Com a Bíblia fora do caminho, os leitores podem agora entronizar sua própria autonomia para orientar suas opiniões sobre sexo.

2. Defende uma definição incorreta de florescimento sexual

A nova ética sexual de Bolz-Weber não se baseia em diretrizes bíblicas, mas na “preocupação com o florescimento do outro” (12). Para uma definição de “florescimento sexual”, ela recorre à Organização Mundial da Saúde (OMS) para orientação e resume sua definição da seguinte forma:

Consentimento (consentimento entusiástico, não apenas a ausência de um “não”) e mutualidade (prazer de ambas as partes) são o que a OMS diz constituir uma ética sexual referencial. (11)

Sem limites claramente definidos para o sexo, ela escreve:

“Seja qual for a sua visão de florescimento sexual, é isso que eu adoraria ver acontecer na sua vida” (60).

Essa definição de florescimento sexual se torna realidade quando Bolz-Weber escreve que assistir pornografia com moderação não é necessariamente prejudicial, dependendo da personalidade, história e relacionamentos da pessoa. Ela lembra ter dado permissão à sua filha de 18 anos para passar a noite na casa do namorado, aconselhando-a a conversar na cama para que ela pudesse aprender a comunicar seus desejos aos futuros amantes. Ela escreve sobre seu próprio divórcio e a satisfação sexual que finalmente experimentou quando começou a namorar seu namorado:

“Foi como se todo o meu espírito tivesse sido descascado. Isso me suavizou, abriu meu coração e limpou a sujeira da minha cabeça. Foi bom. (59)

Mas, como criador e arquiteto do sexo, Deus é quem define o florescimento sexual e decide o que é “bom”. De Gênesis a Apocalipse, Sua Palavra é clara e unificada em sua ética sexual. Em Mateus 19, o próprio Jesus afirma o propósito do sexo e do casamento:

“Por essa razão, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne”.

Jesus também condenou a “imoralidade sexual”, que seus ouvintes teriam entendido como qualquer atividade sexual fora do casamento entre um homem e uma mulher.

Definir isso de qualquer outra forma é colocar a própria opinião acima da de Deus.

3. Ela defende uma compreensão errada da santidade de Deus

Santo, santo, santo, Senhor, Deus de poder e força, o céu e a terra estão cheios da tua glória. Hosana nas alturas.

Depois de citar a oração acima, Bolz-Weber define santidade como “a união que experimentamos uns com os outros e com Deus. Santidade é quando mais de um se torna um, quando o que está fragmentado se torna inteiro” (19). Ela relaciona isso à união sexual de “dois indivíduos que se amam” como santa porque eles estão “unificados em um vínculo erótico” (20).

Ela distingue entre santidade e pureza, assumindo que “a santidade tem a ver com união e a pureza com separação” (26). O problema com essa definição de santidade é que ela é tirada do nada e contradiz o que a Bíblia ensina.

Biblicamente, a santidade de Deus tem a ver com separação. Ela requer que Deus não tenha unidade com o pecado. Como explica um teólogo, “a santidade de Deus significa que ele está separado do pecado e dedicado a buscar sua própria honra”. Essa ideia é expressa em toda a Bíblia, começando com o véu de separação no tabernáculo que selava o “santo dos santos”, onde o próprio Deus habitava. Ela culmina no Apocalipse, que prediz um tempo em que todas as coisas serão corrigidas e santificadas, quando tudo na terra será separado do mal de uma vez por todas.

O apóstolo Pedro escreveu:

“Mas, assim como aquele que vos chamou é santo, também vós sede santos em toda a vossa conduta” (1 Pedro 1:15).

Em outras palavras, separe-se do pecado, porque Deus está separado do pecado.

Aborto

Qualquer manifesto empenhado em destruir a ética sexual cristã inevitavelmente defenderá o direito ao aborto. Bolz-Weber escreve que “os cristãos originalmente acreditavam que a vida começa no nascimento” e que o apoio evangélico à posição pró-vida é uma invenção política moderna (117). A história remonta a 1968, quando a Christianity Today publicou um artigo citando um professor do famoso e conservador Seminário Teológico de Dallas dizendo que os fetos não têm alma.

O que Bolz-Weber oferece não é uma reforma. Ela reciclou uma ética sexual tão antiga quanto o próprio paganismo e a renomeou como “cristã”.

É verdade que os evangélicos eram inconsistentes em suas opiniões sobre o aborto no início da década de 1970, mas é factualmente falso afirmar que essa era a posição original dos cristãos. Os primeiros cristãos se opunham unanimemente ao aborto, que, junto com o infanticídio, era uma prática comum no Império Romano do primeiro século. Já na época da Didaché (80-120 d.C.), todos os escritores cristãos antigos que mencionavam o aborto o proibiam. Como Albert Mohler aponta:

“Não há dúvida de que o cristianismo histórico condenava o aborto e afirmava a santidade da vida humana, nascida e por nascer”.

O plano de Deus

Bolz-Weber escreve que o sexo é um dom de Deus. Concordo. Deus inventou o sexo, deu-o à criação e abençoou-o como um empreendimento bom, santo, belo, prazeroso e frutífero. Mas Deus não nos deu o sexo isoladamente. Não é como se ele tivesse dado a Adão e Eva uma barra de chocolate e dito: “Comam por prazer, mas não comam tanto a ponto de ficarem doentes”. Ele disse a eles: “Sejam fecundos e multipliquem-se”. Embora o sexo fosse prazeroso, o prazer não era seu único ou último objetivo. Seu objetivo final era a intimidade multifacetada no casamento, unindo duas pessoas para a vida, companheirismo, prazer e procriação.

Então, ao buscar a reforma, devemos descartar o que as Escrituras registram do início ao fim e seguir nosso próprio caminho? Como seguidores de Jesus, devemos considerar o que ele ensinou sobre o sexo e aceitar esse ensinamento como vivificante e correto. Afinal, Jesus disse: “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos” (João 14:15). Simplesmente não temos a opção de escolher quais de seus ensinamentos seguir.

Em uma discussão pública com Matthew Vines, Sean McDowell convidou o público a imaginar um mundo em que todos vivessem de acordo com o que Jesus ensinou sobre sexo e casamento. Ele disse:

Não haveria doenças sexualmente transmissíveis. Não haveria abortos. Não haveria casamentos desfeitos. Todas as crianças teriam uma mãe e um pai e experimentariam o amor e a aceitação que cada um dos pais oferece de maneira única. Não haveria estupro, abuso sexual, tráfico sexual, pornografia, nem necessidade de uma campanha #MeToo. Pense na cura e na integridade que haveria se as pessoas simplesmente vivessem as palavras vivificantes de Jesus sobre a sexualidade humana.

Nesse tipo de mundo, não haveria escândalos de abuso sexual na igreja. Os pais não teriam que temer deixar seus filhos aos cuidados de outras pessoas. A lista poderia continuar indefinidamente.

As Escrituras não prometem a todos a satisfação sexual nesta vida. Nem mesmo prometem uma vida sexual incrível a todos os casais que “seguiram o plano de Deus”. Mas oferecem diretrizes que são para o nosso bem, florescimento e proteção.

Sem vergonha?

Embora ela aproveite todas as oportunidades para zombar e ridicularizar o “plano de Deus” para o sexo e o casamento como uma ideia prejudicial, impraticável e ultrapassada, a alternativa oferecida por Bolz-Weber não é a resposta. Simplesmente ignorar ou recusar-se a sentir vergonha não resolverá o problema. Essa vergonha voltará. Nosso maior problema não é a vergonha, é o pecado. Sentir vergonha por nossos pecados é algo bom, porque nos leva à boa notícia de que Cristo tomou nossos pecados e nossa vergonha sobre si mesmo. A única maneira de sermos verdadeiramente sem vergonha é nos arrependermos de nossos pecados e colocarmos nossa fé em Cristo. Como diz Romanos 10:11: “Quem nele crer não será confundido”.

A verdadeira reforma não seria abandonar os ensinamentos da Bíblia, mas começar a vivê-los.

Todos nós, de uma forma ou de outra, falhamos com o plano de Deus, e sou grato a Deus por sua graça e misericórdia para comigo. Essa é a beleza da convicção, do arrependimento e do perdão e restauração que Deus oferece a seus filhos. Sim, precisamos de reforma. Mas o que Bolz-Weber oferece não é reforma. Ela reciclou uma ética sexual tão antiga quanto o próprio paganismo e a renomeou como “cristã”. A verdadeira reforma não é abandonar os ensinamentos da Bíblia, mas começar a vivê-los.

Alisa Childers é uma cantora e compositora americana que escreve no alisachilders.com, um blog apologético para cristãos que são céticos e sinceros. Você pode segui-la no Twitter.

Escrito por:

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Chris Du-Pond

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